Sopravento

🌬️”Para o alto; e o que parecia corpóreo derreteu-se como um respiro no vento. Como teria sido…”
Macbeth, Ato 1, Cena 3

Leitura da conjuntura. Mas antes, trecho do meu diário, do início de 2023: “O dia em que você nascer será o mais triste e o mais feliz. Triste pela despedida, feliz pela chegada. Não sei seu nome, acho que nunca saberei. Espero que você descubra.”

Agora sim, uma ideia geral. Quando em uma comunidade política a liberdade da forma se afasta da liberdade do conteúdo, isso indica ao Estado a necessidade de determinar. O Estado se sente em guerra, ao menos latente, interna. Principado civil: a censura à “liberdade de conteúdo” indica a passagem.

Ainda sobre a centralidade de junho de 2013 para entender a atual crise política brasileira. O biênio 2013-2014 foi um momento de descoberta/emancipação do conflito social e do medo das suas consequências, um contexto particularmente importante pelo sincronismo e massificação. No biênio seguinte, 2015-2016, os protestos foram contidos e o protagonismo das ruas foi assumido por uma direita oposicionista emergente e culminaram no Impeachment – aceito tacitamente pelo PT – de Dilma Rousseff para “esfriar as ruas”. A frágil e reprimida luta pelo Fora Temer nas capitais e em Brasília foi exemplar dessa passagem, assim como a Reforma Trabalhista realizada pelo STF e aprovação da política Ajuste Fiscal (PEC do Fim do Mundo) na Câmara Federal. Eis o tom do novo momento: austeridade e perda de direitos impostas em meio a um golpe assimilado pacificamente pelo socialismo oficial. Em 2018, a execução encomendada da vereadora do PSOL, Marielle Franco, e a obscura investigação que a sucedeu, a prisão Lula e o fracasso de qualquer alternativa eleitoral moderada à esquerda e à direita. Ascensão eleitoral de Bolsonaro com grande expectativa no empresariado em dar continuidade ao “resfriamento”.  

Bolsonaro no governo desdobrou a tendência desestruturação neoliberal iniciada antes dele, mas a ênfase na militarização da segurança pública e nas investidas para controle da Polícia Federal constituíram a verdadeira marca de seu governo. O uso da máquina pública para estruturar as redes de comunicação e propaganda do movimento bolsonarista, desde o próprio gabinete presidencial, dão o tom das urgências sentidas e dos improvisos de uma oligarquia familiar regional em esforço de escalada.

Em 2022, novo confronto eleitoral: as energias evocadas em 2013 seguiram divididas entre Lula (candidato popular com apoio das elites) e Bolsonaro (candidato das elites com apoio popular) sendo este exposto em sua inabilidade institucional e sectarismo políticos no contexto da pandemia de Covid-19 (2020-2021). Em 2023, retorna o governo popular com apoio das elites no Brasil. Por que este seria preferível ao governo das elites com apoio popular? Maquiavel responderia: para que a “chave da cidade” permaneça nas mãos do povo por mais tempo, aposta-se nas raízes populares, sindicais e democráticas das lideranças. Contudo, é justamente aí que a hegemonia lulista vive seu maior impasse. Estruturada pela aliança entre lideranças sindicais e elites intelectuais no fim do período militar e atuante na corrida eleitoral e na máquina estatal há quatro décadas, é hoje uma hegemonia envelhecida no poder.

“Gangrena dissolvente”. Quando uma corrente política popular alcança o poder e não o transforma, ela necessariamente precisa agir para conter os efeitos de seu impulso original sobre quem vem depois. Pouco mais de uma década depois das jornadas de Junho, o que se observa é uma ampla e irrestrita permeabilidade do governo petista aos ávidos interesses de capitalistas e chefias partidárias, tendência inversamente proporcional a do esforço por preservar a qualidade “popular” em seu núcleo. E mesmo com todos os gordos acordos promovidos por cima, a aliança no poder se revela tímida no apoio à governabilidade petista. O risco que as demais elites parlamentares pressentem não é mais o da eclosão de um novo e incontrolável “aquecimento das ruas”, mas o crescimento do ímpeto popular pela punição na urna contra a esquerda.

É verdade que a governabilidade petista alcançou uma linguagem coesa para vencer em 2022 e se impor em seguida, mas ela é bidimensional: os protestos de Junho de 2013 foram berço de grupos de extrema-direita e funcionaram como “antessala do fascismo” que venceu em 2018 e foi derrotado nas urnas em 2022. As manifestações de 8 de janeiro 2023, “terroristas” e golpistas, foram desmanteladas e punidas pela democracia como momento final de uma breve descida ao universo paralelo em que a extrema-direita governa o país democraticamente. 

Inversão de papéis? O problema seguiu e segue sendo o da “hegemonia depois da tomada do poder”. O dia seguinte à vitória sobre o “fascismo”. Paradoxalmente, a punição aos atos golpistas de 8J parece hoje funcionar como uma espécie de álibi para o endurecimento da relação Estado e sociedade civil. Exigir a “punição dos culpados” passou à centralidade do jargão político de esquerda. Na prática, entretanto, o que se sente quando o silêncio ocupa o espaço livre é um vazio de sentido político, uma falta de horizonte. A aparência drena a consistência política, a tristeza é a oportunidade e a alegria o protocolo.

Bolsonaro inelegível, condenado e preso pode acumular motivos para sobreviver “por baixo” dos erros da frente democrático-popular. Manda cartas de amor a um movimento social que segue emergente na direção do que resta do Estado brasileiro. A história mostra que radicalismos políticos dificilmente triunfam no Brasil, está repleta de exemplos “promissores” no início e que, em seguida, revelam um medíocre fim. Quando buscamos a esquerda além de Lula e do PT, como força organizada de pensamento e ação capaz de antagonizar com o bolsonarismo…qual se apresenta?

Sobre o socialismo oficial, são ainda vivas as palavras de Georges Sorel:

“Os métodos do socialismo oficial supõem um mesmo dado histórico. Enxerta-se na degenerescência da economia capitalista a ideologia de uma classe burguesa timorata, humanitária e que pretende emancipar seu pensamento das condições da sua existência. A raça dos chefes audaciosos que fizeram a grandeza da indústria moderna desaparece, para dar lugar a uma aristocracia ultrapoliciada, que pede para viver em paz. Essa degenerescência enche de alegria nossos socialistas parlamentares. Seu papel seria nulo se tivessem à sua frente uma burguesia que se lançasse, com energia, nos caminhos do progresso capitalista, que considerasse timidez uma vergonha e que se deliciasse em pensar em seus interesses de classe”
(Reflexões sobre a violência)

©Daniela Mussi - danimussi@ufrj.br | 2021 por Luana Kava